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Se você possui uma rede social, certamente já foi inundado por reproduções no estilo do Studio Ghibli aplicadas a selfies e outros registros variados gerados por inteligência artificial. O que pode parecer algo banal — mais uma entre tantas trends das redes sociais — tem mobilizado reflexões no meio artístico, questionando os rumos que a IA impõe à humanidade e à preservação de sua história.
A tensão entre progresso tecnológico e preservação da humanidade não é novidade. Desde a Revolução Industrial, a humanidade oscila entre o fascínio por suas criações e o medo de ser substituída por elas. No século XXI, porém, essa dicotomia ganha contornos quase mitológicos: de um lado, a inteligência artificial, essa entidade híbrida de promessas e ameaças; do outro, o legado do Studio Ghibli, um santuário de narrativas que transformam dilemas éticos em poesia visual. Ambos, paradoxalmente, lidam com a mesma questão: como evitar que a busca por eficiência aniquile o que há de mais frágil e essencial no ser humano.
A IA, em sua marcha acelerada, carrega consigo o peso de uma ética reativa. Suas discussões são pautadas por falhas: viés em sistemas de reconhecimento facial, algoritmos que amplificam desigualdades, automação que devora empregos. A ética aqui é um freio tardio, um mea culpa técnico após o estrago. É como consertar um motor enquanto o carro já está em queda livre. O debate gira em torno de como controlar a máquina, não de por que a construímos com tanta pressa. A resposta implícita é sempre a mesma: porque é possível. E, no mundo do capitalismo aceleracionista, "possível" é sinônimo de "necessário".
Já o Studio Ghibli, desde O Castelo no Céu (1986), propõe uma ética ativa, enraizada na contemplação. Seus filmes não são meras críticas à tecnologia desumanizante, mas sim contra-narrativas que resgatam a dimensão espiritual do progresso. Em Princesa Mononoke , a batalha entre indústria e natureza não é maniqueísta: os lobos e os forjadores de ferro são igualmente vítimas de uma lógica de dominação. A ética, aqui, não é um protocolo, mas uma escolha existencial — como quando Ashitaka, contaminado por uma maldição, busca a cura não na destruição do inimigo, mas na compreensão de sua dor.
O que o Vale do Silício e os laboratórios de IA poderiam aprender com isso? Talvez que a ética não é um problema a ser resolvido, mas uma linguagem a ser falada. A IA é celebrada como símbolo do futuro, mas sua ética é anacrônica: trata o humano como dado, a sociedade como variável ajustável e a moralidade como um obstáculo à otimização. O Ghibli, por outro lado, é tido como nostalgia, mas sua visão é radicalmente futura: propõe que o avanço tecnológico só tem significado se preservar espaços para o mistério, a vulnerabilidade e a coexistência. Em Ponyo, a transformação de uma peixinha em humana não é uma metáfora sobre mutação, mas sobre como o amor exige aceitar o caos da metamorfose — algo que algoritmos, obcecados por previsibilidade, jamais compreenderiam.
No cerne dessa discussão está a noção de imperfeição . A IA busca eliminar incertezas, polir arestas, eliminar o erro. Miyazaki, em filmes transforma a imperfeição em virtude: e, nesse contexto, a ética não é um conjunto de regras, mas a aceitação de que viver — e criar — exige correr riscos sem garantias.É sintomático que, enquanto corporações gastam bilhões para "alinhar" IA com valores humanos, o Studio Ghibli alcançou isso há décadas sem um único departamento de compliance.
Assim, ao que parece, a verdadeira inteligência não reside na capacidade de processar dados, mas de reconhecer que toda tecnologia é, antes de tudo, uma história que contamos sobre nós mesmos. E, se quisermos que essas histórias não terminem em distopia, precisamos urgentemente de menos machine learning e mais soul learning — algo que, convenhamos, um Totoro explicaria em 30 segundos, sem precisar de um supercomputador.